Quando pensamos em um perfume, é natural imaginar apenas sua fragrância. Afinal, o cheiro é sua característica mais evidente. Mas será que um perfume comunica apenas por meio do olfato? O que existe por trás de um frasco, de um nome, de uma campanha publicitária ou da escolha de determinados ingredientes? Essas perguntas deram origem à pesquisa de mestrado que venho desenvolvendo no Programa de Pós-Graduação em Têxtil e Moda da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), sob orientação da professora Claudia Vicentini.
Meu nome é Bruno Dalto do Nascimento e esta pesquisa parte da ideia de que os perfumes podem ser compreendidos como objetos culturais. Mais do que produtos destinados a perfumar o corpo, eles carregam histórias, valores, memórias, estilos de vida e formas de perceber o mundo. Assim como uma obra de arte, uma peça de roupa ou um filme, um perfume também comunica, ainda que essa comunicação aconteça por diferentes linguagens ao mesmo tempo.
Para investigar essa dimensão, a pesquisa concentra-se nos perfumes desenvolvidos por marcas de moda brasileiras. Nessas marcas, a fragrância não costuma ser apenas um produto adicional do catálogo, mas uma extensão da identidade construída pela moda. Ela traduz em aromas aquilo que antes era expresso pelas roupas, pelos desfiles, pelas campanhas e pelo universo simbólico da marca. O perfume passa, então, a integrar uma narrativa mais ampla, que envolve aspectos estéticos, culturais, econômicos e afetivos.
A principal ferramenta utilizada para compreender essa construção de sentidos é a Semiótica Discursiva, desenvolvida por Algirdas Julien Greimas. Diferentemente da ideia popular de que a semiótica estuda apenas símbolos, essa corrente busca compreender como os significados são produzidos a partir das relações estabelecidas entre diferentes elementos de um discurso. No caso da perfumaria, isso significa analisar como o cheiro, o frasco, o nome, a embalagem, a comunicação visual e os textos da marca atuam em conjunto para construir uma determinada experiência de sentido.
Entretanto, compreender apenas o perfume enquanto objeto não é suficiente. É preciso observar também o ambiente em que ele circula, as práticas de consumo, as relações estabelecidas com os usuários e o contexto cultural que permite que determinados significados sejam compartilhados. É nesse ponto que a pesquisa incorpora as contribuições da Semiótica das Práticas, desenvolvida por Jacques Fontanille.
Fontanille propõe que os sentidos não estão contidos apenas nos objetos, mas emergem das relações que eles estabelecem com os sujeitos, com as práticas sociais e com as formas de vida das quais fazem parte. Em vez de analisar exclusivamente um frasco ou uma fragrância de maneira isolada, torna-se possível compreender como o perfume participa de rituais cotidianos, constrói vínculos afetivos, representa identidades e ocupa diferentes posições dentro da cultura. Essa perspectiva amplia significativamente o olhar sobre a perfumaria, permitindo entender o perfume não apenas como um produto, mas como um fenômeno social e cultural.
Ao reunir as contribuições de Greimas e Fontanille, a pesquisa procura interpretar o perfume em diferentes níveis. De um lado, investiga como seus elementos visuais, verbais e olfativos produzem significados. De outro, procura compreender como esses significados são ativados nas práticas de uso, nas relações entre consumidores e marcas e nos modos de vida que essas fragrâncias ajudam a construir e representar.
Essa abordagem revela que um perfume nunca é apenas uma combinação de matérias-primas aromáticas. Ele é resultado de escolhas estéticas, estratégias de comunicação, referências culturais e experiências sensíveis que se articulam para produzir sentidos. O cheiro é apenas uma parte dessa construção.
Esta série de artigos nasce justamente do desejo de compartilhar essa forma de olhar para a perfumaria. Ao longo dos próximos textos, apresentarei, em uma linguagem acessível, alguns dos conceitos discutidos na pesquisa de mestrado, mostrando como a semiótica pode revelar aspectos dos perfumes que normalmente passam despercebidos. Espero que, ao final dessa jornada, cada fragrância deixe de ser vista apenas como algo que perfuma e passe a ser compreendida como uma narrativa capaz de comunicar identidades, despertar memórias e expressar formas de viver.
Referências
BARROS, Diana Luz Pessoa de. Teoria semiótica do texto. 5. ed. São Paulo: Ática, 2011.
FIORIN, José Luiz. Elementos de análise do discurso. 15. ed. São Paulo: Contexto, 2008.
FONTANILLE, Jacques. Práticas semióticas. São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2008.
FONTANILLE, Jacques. Formas de vida. São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2015.
GREIMAS, Algirdas Julien; COURTÉS, Joseph. Dicionário de Semiótica. São Paulo: Contexto, 2016.
LANDOWSKI, Eric. Interações Arriscadas. São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2014.
NASCIMENTO, Bruno Dalto do. Pesquisa de mestrado em desenvolvimento no Programa de Pós-Graduação em Têxtil e Moda da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), sob orientação da Prof.ª Dr.ª Claudia Vicentini.
