Quando alguém experimenta um perfume, quase sempre faz a mesma pergunta: “Qual é o cheiro?”. É uma pergunta natural, mas talvez ela seja pequena demais.
E se perguntássemos: o que esse perfume está dizendo?
Pode parecer estranho imaginar que um perfume comunica alguma coisa. Afinal, ele não fala, não escreve e não produz imagens. Ainda assim, basta pensar em quantas vezes uma fragrância nos fez lembrar uma pessoa, um lugar ou um momento da vida para perceber que ela é capaz de produzir sentidos muito antes de conseguirmos descrever suas notas olfativas.
Foi justamente essa inquietação que deu origem à pesquisa que venho desenvolvendo como mestrando em Têxtil e Moda na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), sob orientação da Prof.ª Dr.ª Claudia Vicentini.
A pesquisa procura compreender os perfumes para além de suas características aromáticas. Em vez de perguntar apenas “como esse perfume cheira?”, ela investiga como um perfume produz significado.
Essa mudança de perspectiva transforma completamente o objeto de estudo.
Um perfume deixa de ser entendido apenas como uma mistura de matérias-primas aromáticas e passa a ser visto como um objeto cultural. Seu frasco, seu nome, sua embalagem, sua publicidade, a história da marca, os lugares onde é vendido, as pessoas que o usam e até os momentos em que ele é aplicado participam da construção de uma mesma narrativa.
Em outras palavras, o cheiro é apenas uma das linguagens do perfume.
Para compreender essa narrativa, a pesquisa utiliza a Semiótica Discursiva, desenvolvida por Algirdas Julien Greimas. Em linhas gerais, essa teoria busca compreender como os sentidos são construídos. Em vez de analisar elementos isolados, ela investiga as relações que fazem um objeto significar alguma coisa para alguém.
Aplicada à perfumaria, essa perspectiva permite observar como os diferentes elementos que compõem um perfume — sua fragrância, identidade visual, textos, imagens e posicionamento — trabalham em conjunto para comunicar valores, emoções e formas de perceber o mundo.
Mas compreender um perfume exige olhar também para aquilo que acontece fora dele.
É por isso que a pesquisa incorpora as contribuições de Jacques Fontanille, cuja ampliação da teoria semiótica oferece ferramentas para compreender não apenas os objetos, mas também as práticas, as estratégias e as formas de vida nas quais esses objetos estão inseridos.
Sob esse olhar, o perfume deixa de ser apenas algo que está dentro de um frasco. Ele passa a ser entendido como parte de um conjunto de práticas culturais: o ritual de se perfumar antes de sair de casa, a lembrança afetiva associada a uma fragrância, a construção de uma identidade pessoal, a relação entre uma marca de moda e seus consumidores, ou mesmo a maneira como determinadas fragrâncias passam a representar épocas, estilos ou modos de viver.
Assim, a pesquisa reúne duas perspectivas complementares. Enquanto Greimas oferece instrumentos para compreender como os sentidos são construídos no próprio discurso do perfume, Fontanille permite acompanhar esses sentidos em circulação, mostrando como eles se manifestam nas práticas sociais e nas formas de vida.
O corpus da pesquisa é formado pelos perfumes lançados por marcas de moda brasileiras. Eles foram escolhidos porque representam um fenômeno particularmente interessante: nessas marcas, o perfume não funciona apenas como um produto licenciado, mas como uma extensão da linguagem da moda. A fragrância amplia para o olfato aquilo que antes era comunicado pelas roupas, pelas campanhas e pelo universo simbólico da marca.
Mais do que analisar perfumes específicos, esta pesquisa procura compreender como essas fragrâncias participam da construção de identidades, sensibilidades e experiências culturais.
Este artigo inaugura uma série em que compartilharei, em linguagem acessível, algumas das reflexões desenvolvidas durante meu mestrado. A proposta não é transformar o leitor em um especialista em semiótica, mas mostrar que existe uma maneira diferente de olhar para a perfumaria.
Depois que entendemos que um perfume produz significados, dificilmente voltamos a enxergá-lo apenas como um cheiro.
Referências
BARROS, Diana Luz Pessoa de. Teoria semiótica do texto. 5. ed. São Paulo: Ática, 2011.
FIORIN, José Luiz. Elementos de análise do discurso. 15. ed. São Paulo: Contexto, 2008.
FONTANILLE, Jacques. Práticas semióticas. São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2008.
FONTANILLE, Jacques. Formas de vida. São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2015.
GREIMAS, Algirdas Julien; COURTÉS, Joseph. Dicionário de Semiótica. São Paulo: Contexto, 2016.
LANDOWSKI, Eric. Interações Arriscadas. São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2014.
