Os perfumes acompanham a humanidade há milhares de anos. Civilizações como a egípcia, a grega e a romana utilizavam substâncias aromáticas em rituais religiosos, práticas medicinais e cuidados com o corpo. Ao longo dos séculos, a perfumaria evoluiu acompanhando as transformações sociais, tornando-se símbolo de status, refinamento e identidade. No século XX, porém, ela passou por uma mudança importante: o perfume deixou de ser apenas um produto da indústria da perfumaria para tornar-se também uma expressão da moda.

Essa aproximação não aconteceu por acaso. Ela está relacionada à própria maneira como entendemos o que é moda.

Embora seja frequentemente associada às roupas, a moda é um fenômeno cultural muito mais amplo. Para o filósofo Gilles Lipovetsky (1989), a moda caracteriza a sociedade moderna por seu constante desejo de renovação, inovação e individualização. Mais do que vestir o corpo, ela produz estilos de vida e formas de expressão.

No Brasil, Gilda de Mello e Souza (1987) demonstra que o vestuário funciona como uma linguagem capaz de comunicar posição social, valores, gostos e identidades. Escolher uma roupa é também escolher uma forma de se apresentar ao mundo.

Essa compreensão é ampliada por Didier Grumbach (2009), que observa como as marcas de moda contemporâneas deixaram de produzir apenas roupas para construir universos completos de significado. O consumidor já não compra somente uma peça de vestuário, mas uma narrativa, um estilo de vida e uma identidade que podem se manifestar em diferentes produtos.

É nesse contexto que o perfume ganha um papel central.

Quando um estilista cria uma coleção, ele traduz sua visão criativa por meio de tecidos, modelagens, cores e formas. O perfume permite que essa mesma identidade seja expressa por outra linguagem: o olfato. Em vez de reproduzir uma roupa, a fragrância prolonga seu discurso, transformando em experiência sensorial aquilo que antes era percebido apenas visualmente.

Por isso, o perfume pode ser entendido como uma extensão da criação do estilista. Ele amplia o universo simbólico da marca e permite que seus valores continuem sendo comunicados mesmo quando não há uma peça de roupa em cena.

Essa estratégia também tornou a moda mais acessível. Enquanto poucas pessoas podem adquirir uma peça de alta-costura, um perfume oferece a possibilidade de participar daquele universo criativo por um custo muito menor. Em muitos casos, a fragrância torna-se o primeiro contato do consumidor com uma marca de moda.

É justamente essa relação entre moda e perfumaria que investigo em minha pesquisa de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Têxtil e Moda da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), sob orientação da Prof.ª Dr.ª Claudia Vicentini.

A pesquisa analisa os perfumes lançados por marcas de moda brasileiras utilizando a Semiótica Discursiva, proposta por Algirdas Julien Greimas, para compreender como essas fragrâncias constroem significados por meio de diferentes linguagens. Ao mesmo tempo, recorre às contribuições de Jacques Fontanille, cuja teoria permite ampliar a análise para as práticas sociais, estratégias e formas de vida nas quais esses perfumes circulam.

Sob essa perspectiva, um perfume não é apenas uma composição aromática. Ele é uma forma de comunicação que expressa a identidade de uma marca e participa da construção de experiências culturais. Quando uma grife lança uma fragrância, ela não está apenas entrando em um novo segmento de mercado: está expandindo sua linguagem para além das roupas e permitindo que sua criação também seja percebida pelo olfato.

É por isso que, na moda, o perfume dificilmente é um simples acessório. Assim como uma coleção, ele também conta histórias, comunica valores e ajuda a construir a identidade de quem o usa.


Referências

GRUMBACH, Didier. Histórias da Moda. São Paulo: Cosac Naify, 2009.

LIPOVETSKY, Gilles. O Império do Efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

SOUZA, Gilda de Mello e. O Espírito das Roupas: a moda no século dezenove. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

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