Quando conto que estou desenvolvendo uma pesquisa sobre perfumes no Programa de Pós-Graduação em Têxtil e Moda da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), uma pergunta aparece com frequência:
“Mas perfume tem a ver com moda?”
A resposta é sim — e muito mais do que parece à primeira vista.
Durante muito tempo, a moda foi entendida principalmente como o estudo das roupas e dos tecidos. Hoje, porém, pesquisadores reconhecem que ela é um fenômeno cultural muito mais amplo. A moda não produz apenas vestimentas; ela produz identidades, comportamentos, estilos de vida e maneiras de se relacionar com o mundo.
É justamente por isso que grandes marcas de moda não criam apenas roupas. Elas também desenvolvem bolsas, calçados, joias, óculos, móveis, hotéis e perfumes. Todos esses produtos fazem parte de um mesmo universo criativo e comunicam os valores da marca por diferentes linguagens.
O perfume ocupa um lugar especial nesse processo.
Enquanto uma roupa comunica por meio das formas, cores e materiais, a fragrância acrescenta uma dimensão que a moda sozinha não consegue alcançar: o olfato. Ela transforma em experiência sensorial aquilo que antes era percebido apenas pelos olhos e pelo toque.
Por isso, estudar perfumes é também estudar moda.
Minha pesquisa, desenvolvida no mestrado em Têxtil e Moda da EACH-USP, sob orientação da Prof.ª Dr.ª Claudia Vicentini, parte justamente dessa perspectiva. O objetivo não é investigar a química das fragrâncias nem ensinar técnicas de perfumaria, mas compreender como os perfumes produzidos por marcas de moda brasileiras comunicam significados, constroem identidades e ampliam o discurso criativo dessas marcas.
Para responder a essas questões, utilizo a Semiótica Discursiva, proposta por Algirdas Julien Greimas, que oferece instrumentos para compreender como os sentidos são construídos em diferentes linguagens. Também recorro às contribuições de Jacques Fontanille, que amplia esse olhar ao mostrar que os significados não estão apenas nos objetos, mas também nas práticas sociais, nas estratégias e nas formas de vida das quais eles participam.
Essa abordagem permite compreender que um perfume não é apenas um aroma agradável. Ele faz parte de um projeto criativo maior. Seu nome, seu frasco, sua embalagem, sua comunicação visual e sua fragrância trabalham juntos para expressar a identidade de uma marca e criar uma experiência coerente com seu universo estético.
Escolhi desenvolver essa pesquisa porque acredito que a perfumaria ainda é pouco explorada pelos estudos de moda no Brasil, apesar de ocupar um papel cada vez mais importante na construção das marcas e na relação entre consumidores e identidade. Os perfumes deixaram de ser apenas produtos licenciados e passaram a ser uma das formas mais sofisticadas de comunicação da moda contemporânea.
Estudar esse fenômeno dentro de um programa de Têxtil e Moda significa reconhecer que a moda vai muito além das roupas. Ela também pode ser vista, tocada, ouvida e, sobretudo, sentida.
Ao longo desta série de artigos, vou compartilhar algumas das reflexões desenvolvidas durante a pesquisa, mostrando como a moda pode ser compreendida também por meio do olfato e como um simples frasco de perfume pode revelar aspectos importantes da cultura, do design, do consumo e da construção das identidades.
Referências
GRUMBACH, Didier. Histórias da Moda. São Paulo: Cosac Naify, 2009.
LIPOVETSKY, Gilles. O Império do Efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
SOUZA, Gilda de Mello e. O Espírito das Roupas: a moda no século dezenove. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
FONTANILLE, Jacques. Práticas semióticas. São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2008.
GREIMAS, Algirdas Julien; COURTÉS, Joseph. Dicionário de Semiótica. São Paulo: Contexto, 2016.
