O que um perfume pode dizer sobre uma pessoa, uma marca ou até mesmo sobre uma sociedade? Essa é uma das perguntas que orientam uma pesquisa de mestrado de Bruno Dalto do Nascimento em desenvolvimento na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), dedicada a investigar as relações entre perfumaria, moda, cultura e semiótica no Brasil.
A pesquisa parte da ideia de que o perfume é muito mais do que uma fragrância. Antes mesmo de ser aplicado sobre a pele, ele já está envolvido por nomes, imagens, embalagens, histórias e discursos que ajudam a construir seu significado. O cheiro também participa dessa construção e pode despertar memórias, criar associações e comunicar ideias sobre identidade, personalidade e estilo.
O estudo observa especialmente perfumes lançados no Brasil e assinados por estilistas brasileiros, buscando compreender como esses produtos podem funcionar como formas de expressão cultural. A escolha de um perfume, nesse sentido, não acontece isoladamente. Ela está relacionada aos valores, desejos e referências que circulam em uma determinada sociedade.
Por que estudar perfumes?
A perfumaria é um campo especialmente interessante porque envolve um sentido que costuma receber menos atenção do que a visão. Vivemos em uma cultura profundamente marcada por imagens, fotografias, vídeos e telas, enquanto o olfato muitas vezes permanece em segundo plano. Estudar o perfume permite, portanto, ampliar a maneira como observamos os objetos que fazem parte da vida cotidiana.
É nesse ponto que entra a semiótica, área de pesquisa que procura compreender como os sentidos são produzidos e interpretados. Em vez de olhar para um produto apenas pelo que ele aparenta ser, a semiótica permite investigar as relações que estão por trás dele e perceber como diferentes elementos trabalham juntos para produzir determinados significados.
Esse tipo de olhar se torna ainda mais relevante em um mundo no qual somos diariamente cercados por informações, imagens, publicidade e discursos de consumo. Aprender a identificar como os sentidos são construídos ajuda a desenvolver uma postura mais analítica e crítica diante daquilo que vemos, ouvimos, consumimos e, também, sentimos.
Uma pesquisa sobre perfume, mas também sobre o modo como olhamos o mundo
Embora tenha a perfumaria como objeto, a pesquisa procura discutir questões mais amplas relacionadas à cultura brasileira, ao consumo, à moda e à construção de identidades. Um perfume pode revelar muito sobre o momento histórico em que foi criado, sobre os valores associados a determinada marca e sobre os modos como as pessoas desejam se apresentar e ser percebidas.
A investigação ainda está em andamento, mas parte de uma convicção fundamental: observar com atenção aquilo que parece cotidiano pode revelar estruturas de sentido que normalmente passam despercebidas.
Estudar um perfume é, nesse caso, uma maneira de estudar também as pessoas, as marcas, a cultura e as relações que estabelecemos com os objetos ao nosso redor. E talvez seja justamente essa uma das maiores contribuições da semiótica: nos ensinar a olhar novamente para aquilo que acreditávamos já conhecer.
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