Quando pensamos em perfume, é comum imaginá-lo simplesmente como uma fragrância agradável aplicada à pele. Mas o perfume pode ser muito mais do que isso. Ele pode marcar uma presença, despertar uma lembrança, construir uma identidade, transformar um ambiente e até participar da maneira como nos relacionamos com outras pessoas.
É justamente a partir dessa perspectiva que a filósofa francesa Chantal Jaquet, em seu livro Filosofia do odor, propõe uma reflexão sobre o estatuto do odor e sobre as diferentes maneiras pelas quais os odores participam da nossa experiência sensível.
Pensar filosoficamente o perfume significa, portanto, deixar de considerá-lo apenas como uma composição de matérias-primas aromáticas e perguntar: o que é um perfume enquanto experiência? O que ele faz quando entra em contato com o corpo, com a memória, com o espaço e com outras pessoas?
O perfume não é apenas um cheiro
O odor apresenta uma característica particular entre os sentidos: ele não permanece facilmente separado daquele que o percebe. Quando sentimos um perfume, não estamos simplesmente observando um objeto externo. A experiência olfativa envolve o corpo de maneira direta.
Essa característica ajuda a compreender por que o perfume possui diferentes estatutos. Ele pode ser entendido simultaneamente como matéria odorante, sensação, experiência corporal, memória, signo, elemento de identidade e forma de relação com o mundo.
Para Jaquet (2014), a reflexão sobre o odor permite questionar a tradicional hierarquia dos sentidos que privilegia a visão e, em menor medida, a audição. O olfato possui uma lógica própria e produz formas particulares de conhecimento e experiência.
É justamente por isso que estudar o perfume é também estudar o modo como o corpo percebe e atribui sentido ao mundo.
1. O perfume como matéria odorante
O primeiro estatuto é aquele mais próximo da própria materialidade do perfume.
Antes de ser percebido como agradável, sofisticado, sensual ou familiar, o perfume é constituído por substâncias odorantes. Óleos essenciais, moléculas aromáticas, extratos, absolutos e outras matérias-primas são combinados para produzir uma determinada composição.
Existe, portanto, uma dimensão química e material da perfumaria.
Mas a matéria odorante, sozinha, não explica o perfume. Uma mesma molécula pode participar de diferentes composições e produzir experiências muito distintas dependendo de sua concentração, das matérias que a acompanham e da interação com a pele.
O perfume nasce, assim, de uma relação entre matéria e percepção.
2. O perfume como sensação
O segundo estatuto aparece quando a matéria odorante encontra o corpo.
O perfume deixa de ser apenas uma composição química e passa a existir como sensação olfativa.
É nesse momento que aparecem qualidades como fresco, cítrico, floral, verde, amadeirado, doce, especiado ou ambarado. Essas classificações são maneiras de organizar uma experiência sensível que, em sua origem, é bastante complexa.
Sentir perfume é uma experiência corporal. O odor não é simplesmente observado à distância: suas moléculas chegam ao sistema olfativo e desencadeiam uma experiência perceptiva.
Por isso, duas pessoas podem perceber o mesmo perfume de maneiras diferentes.
A perfumaria trabalha justamente nessa região entre a matéria e a sensação: cria uma composição esperando que ela produza determinada experiência no corpo de quem a utiliza.
Quer experimentar essa relação entre matéria, cheiro e criação?
Na Oficina de Perfumaria da Realindo, a criação de um perfume pode ser experimentada de maneira prática e sensível, aproximando o participante das matérias-primas e das possibilidades de composição de uma fragrância.
3. O perfume como memória
Um dos aspectos mais fascinantes do odor é sua capacidade de evocar situações que pareciam esquecidas.
Um cheiro pode nos transportar para uma casa, uma pessoa, uma viagem, uma infância ou uma determinada época da vida. Às vezes, isso acontece antes mesmo de conseguirmos identificar racionalmente aquilo que estamos sentindo.
O perfume adquire, nesse caso, um estatuto mnemônico.
Não se trata apenas de dizer que determinado perfume “lembra” alguma coisa. A experiência olfativa pode reativar uma situação vivida e estabelecer uma relação entre o presente e o passado.
É por isso que perfumes possuem uma relação tão forte com a intimidade. Uma fragrância pode funcionar como uma espécie de arquivo sensível da experiência.
O perfume de uma pessoa, por exemplo, pode permanecer associado à sua presença mesmo quando ela não está mais fisicamente próxima.
4. O perfume como marca de identidade
Quando escolhemos uma fragrância para usar no corpo, também estamos realizando uma escolha sobre a maneira como queremos nos apresentar.
O perfume passa então a participar da construção da identidade.
Assim como roupas, acessórios, maquiagem e corte de cabelo, a fragrância pode contribuir para a produção de uma aparência social. A diferença é que o perfume acrescenta uma dimensão invisível à apresentação do corpo.
Podemos pensar, portanto, no perfume como uma espécie de extensão olfativa do corpo.
Ele acompanha os movimentos, permanece no espaço depois da passagem de uma pessoa e pode ser reconhecido por outras pessoas antes mesmo que o corpo seja visualmente identificado.
Nesse sentido, o perfume participa da maneira como construímos nossa presença no mundo.
5. O perfume como signo
O perfume também pode produzir significados.
Uma fragrância cítrica pode ser associada à ideia de frescor. Uma composição floral pode produzir determinados efeitos de feminilidade ou delicadeza. Notas amadeiradas podem ser relacionadas à ideia de profundidade, natureza ou sofisticação.
Essas associações não são universais nem naturais. Elas dependem de experiências culturais, hábitos, discursos e convenções.
O perfume pode, portanto, funcionar como um signo.
É nesse ponto que a perfumaria se aproxima da moda. Assim como uma roupa não comunica apenas por sua forma material, uma fragrância também participa de sistemas culturais de significação.
Um perfume pode dizer algo sobre quem o usa, sobre a ocasião em que é utilizado e sobre a imagem que se pretende construir.
6. O perfume como presença
Existe ainda uma característica particular do perfume: sua capacidade de produzir presença mesmo quando o corpo não está mais ali.
Uma pessoa entra em uma sala usando determinada fragrância. Depois de sua saída, o odor pode permanecer durante algum tempo.
O perfume cria, assim, uma espécie de presença à distância.
Essa característica é particularmente interessante porque rompe a separação entre corpo e espaço. O perfume não fica necessariamente contido na pele. Ele se espalha, ocupa o ambiente e estabelece uma relação entre o corpo que o porta e aqueles que estão ao seu redor.
A fragrância passa a participar da própria espacialidade da experiência.
7. O perfume como relação
O odor também pode aproximar ou afastar pessoas.
Cheiros agradáveis podem favorecer a aproximação, enquanto determinados odores podem provocar rejeição. O perfume participa, portanto, das relações sociais e da maneira como os corpos ocupam espaços compartilhados.
Essa dimensão relacional é fundamental.
Usar perfume nunca é uma experiência exclusivamente individual. Mesmo quando aplicamos uma fragrância pensando apenas em nós mesmos, outras pessoas podem percebê-la.
O perfume é, nesse sentido, simultaneamente íntimo e social.
Ele pertence ao corpo de quem o utiliza, mas também alcança o corpo dos outros.
8. O perfume como experiência estética
Finalmente, podemos pensar o perfume como uma experiência estética.
Criar uma fragrância envolve combinar matérias, contrastes, intensidades, permanências e transformações. Uma composição pode começar cítrica e luminosa, tornar-se floral ou especiada e terminar sobre uma base amadeirada ou almiscarada.
O perfume possui uma espécie de temporalidade própria.
Ele não é necessariamente percebido de uma única vez. Sua experiência se transforma ao longo do tempo, tanto pela evolução da composição quanto pela interação com a pele.
A criação de perfumes pode, portanto, ser compreendida como uma forma de composição sensível.
Afinal, o que é um perfume?
A contribuição de Chantal Jaquet está justamente em mostrar que o odor não precisa ser reduzido a uma simples sensação agradável ou desagradável.
Pensar o perfume a partir de seus diferentes estatutos permite compreendê-lo como um fenômeno complexo:
matéria, sensação, memória, identidade, signo, presença, relação e experiência estética.
Essas dimensões não existem necessariamente separadas. Elas se sobrepõem.
Quando colocamos perfume na pele, por exemplo, uma composição material produz uma sensação; essa sensação pode despertar uma memória; a fragrância passa a participar da nossa identidade; outras pessoas a percebem; e o conjunto produz significados sobre aquele corpo.
É justamente nessa sobreposição que está a riqueza da perfumaria.
Criar um perfume é criar uma experiência
Essa perspectiva também muda a maneira como pensamos a criação de perfumes.
Criar uma fragrância não significa simplesmente escolher matérias-primas que tenham um cheiro agradável. Significa pensar que experiência queremos produzir.
Que memória pode surgir?
Que sensação queremos provocar?
Como essa fragrância se relacionará com o corpo?
Como será percebida por outras pessoas?
Que identidade ela poderá construir?
Na Oficina de Perfumaria da Realindo, essa investigação pode ser experimentada na prática. A proposta é aproximar o participante do universo da perfumaria por meio da experimentação olfativa e da criação, transformando o perfume em uma experiência que envolve conhecimento, sensibilidade e imaginação.
Afinal, talvez uma das melhores maneiras de compreender o perfume seja justamente experimentá-lo.
Referência
JAQUET, Chantal. Filosofia do odor. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2014.
